Poesia e Prosa no Romance Policial

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Um jovem trabalhador rural é acusado do roubo de algumas cabeças de gado e alguns carneiros de seu patrão. A mãe jura que o filho é inocente, mas ele foge agravando sua situação diante da lei. Um tempo depois, o dono da fazenda aparece morto. O jovem é mais uma vez acusado e mais uma vez não apresenta um álibi. A polícia está convicta de que quem praticou os dois crimes foi o jovem foragido. A mãe do rapaz contratou um advogado para provar a inocência de seu filho. Mas, o jovem não parece nem um pouco interessado em provar que é inocente.

psicoseVocê, sendo um advogado, aceitaria um caso onde seu cliente se recusa a cooperar?
Um delator, intrigante, usurário e colecionador de desafetos foram assassinados. Um jovem, mentalmente perturbado, que quase nunca saia de casa, cujo sonho era seguir carreira militar e que esculpia armas e soldadinhos de madeira foi encontrado ao lado do cadáver. Ele é preso em flagrante. Pouco tempo depois, o rapaz morre em sua cela na prisão (homicídio ou suicídio?). Para a política o caso parece que está encerrado. Todas as peças estão encaixadas.

Você, sendo um advogado, continuaria seu trabalho depois da morte de seu cliente?
Uma contenda entre dois homens. A irmã de um deles aparece morta em um lugar ermo com a língua e as mãos cortadas. Para os policiais tudo parece resolvido: foi um acerto de contas. Mas, o acusado, um cruel e frio assassino diz que é inocente e procura um advogado para defendê-lo.

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Você, sendo advogado, aceitaria esse caso?

Três histórias reflexivas, não? Respondendo sim e/ou não é necessário oferecer uma justificativa, um argumento ou uma explicação para seu posicionamento. São essas reflexões que Marcello Fois (1960), um romancista e dramaturgo italiano da Sardenha, propõe nos três livros de romance policial que foram editados no Brasil pela Record sob a rubrica da Coleção Negra em sua edição especial: Noir Europeu.

Essa edição especial é dedicada aos maiores mestres da ficção policial do velho continente. Vamos aos livros. O jovem trabalhador rural é Zenobi e sua história é contada no livro: Sempre Caro (2004). Esse romance foi finalista do premio de literatura policial Historical Dagger em 2003. O rapaz que esculpia armas e soldados de madeira é Filippo Tanchis e sua história é contada no livro: Sangue do Céu. Esse livro foi lançado na FLIP em 2005, quando o autor esteve no Brasil. E, finalmente, o cruel e frio assassino é Dionigi Mariani e sua história é contada no livro: O Outro Mundo (2004). Essas datas são as de publicação no Brasil, pois na Itália as datas são respectivamente: 1998, 1999 e 2003. É mais interessante ler na seqüência em que foram escritos porque além de existir uma continuidade na abordagem de alguns temas há a permanência de alguns personagens nas três histórias.

Para enfrentar essas situações inusitadas Fois criou Bustianu, um melancólico advogado poeta que, também, é um investigador atento a detalhes, questionador das soluções fáceis e adepto de métodos heterodoxos. Enquanto vai descobrindo fatos, o advogado nos apresenta de maneira poética as paisagens, as tradições, os temperamentos, os comportamentos e os sabores da forte região sarda. A narrativa do romancista nos conduz à criação desses cenários. Seus relatos são cinematográficos, pois suas descrições são minuciosas.

Fiquei impressionada porque ainda não havia lido uma história policial em tom poético. É diferente, sabe? É quase como uma leve lufada de vento. Você não sente o tempo passar enquanto está lendo. O elemento humano, as necessidades de cada personagem são colocadas em primeiro plano. Bustianu é um homem com conflitos, crises, raivas, expectativas e lágrimas. Seus clientes são pessoas de vida simples, despojadas e altamente confiantes na capacidade intelectual e solidária de seu representante legal, pois ele questiona o conceito de justiça vigente na sociedade.

Ao ler o livro: Sempre Caro preste atenção ao prefácio escrito por Andrea Camilleri; e ao ler: Sangue do Céu preste atenção ao prefácio escrito por Manuel Vázquez Montalbán. Essas introduções escritas por dois grandes mestres do romance policial são reveladores e, constitui um capítulo a parte. São verdadeiras aulas de crítica literária.
Mesmo antes de conceber o advogado Bustianu, Fois já havia recebido o prêmio (Italo) Calvino em 1995 e prêmio (Giuseppe) Dessí em 1997. Ambos atribuídos por instituições literárias italianas.
Bem, com essas credenciais o que me resta dizer?!?!

Boa leitura!

Descubra o prazer de ler um romance policial aonde a prosa vai se tornando lentamente um exercício poético de ver através dos olhos daqueles que são considerados culpados. Talvez essa inversão na perspectiva de olhar revele um universo, totalmente, desconhecido até então.

Um grande abraço.

Muita paz!

Sônia Cândido

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