Dostoiévski em foco e em fragmentos…

pzl-humanoEstá à venda nas bancas de revista o número 7 da Coleção Entre clássicos. Esse número é dedicado ao grande escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Essa coleção é uma das extensões da Revista Entrelivros. Em sua primeira etapa a coleção nos foi apresentada com 6 publicações abordando: Dante, Shakespeare, Cervantes, Camões, Goethe e Balzac. Nessas edições é possível nos deliciarmos com artigos críticos sobre a produção literária desses clássicos. No caso de Shakespeare existe uma edição posterior que foi vendida com um DVD contendo um documentário sobre esse célebre escritor com três horas de duração. Coisa de primeira linha! Caso tenha havido uma venda posterior de revista e documentário dos outros autores da primeira fase da coleção essa leva não chegou à cidade de Maceió.

Quando lemos os números da primeira seleção de escritores nos familiarizamos com uma particularidade: todos os artigos escritos pelos estudiosos têm teor crítico, isto é, estão exercitando a crítica literária. Dessas críticas que nos enchem de curiosidade pelo texto. E nos levam quase que enfeitiçados à livraria, à biblioteca pública ou até mesmo a uma biblioteca particular de um (a) amigo (a), caso não tenhamos lido a obra em questão. É assim como ouvir um canto de uma sereia… Ou o canto da flauta mágica… Sentimos-nos impulsionados a ler com os próprios olhos e a construir com nossa imaginação aquelas descrições feitas a partir de uma percepção que não é a nossa.

Esses artigos são polifônicos, ou seja, diversos críticos escrevendo sobre as mesmas obras, mesmos cenários destacando aspectos e temáticas diferentes, complementares, conflitantes e até mesmo contraditórias. Nessa polifonia nos educam no respeito a compreensões divergentes e nos ajudam na construção de nossa emancipação intelectual. São críticas especializadas e sofisticadas, portanto, não as acompanharemos sem um mínimo de repertório cultural.

Voltemos à segunda fase da coleção. Nessa nova seleção as editoras Duetto e Ediouro vão publicar: Kafka, Joyce, Borges, Proust e Pessoa. Assim que vi um exemplar da revista comprei embalada e empolgada pela perspectiva de ler um material bastante substancial sobre a obra de Dostoievski.

Oh! Oh! Logo no editorial uma informação quebrou o encanto. Os novos editores da revista alteraram a formatação dos textos. Agora, o conteúdo está disposto em 4 partes: vida e obra; grandes romances; obras de juventude; e, fortuna crítica. O conteúdo antes apresentado sem fronteiras, agora estabelecem um hiato entre o conteúdo e crítica. O que era tecido junto passa a ser apresentado em fragmentos. As três primeiras partes parecem mais um resumão. Desses que os cursinhos preparam para as leituras rápidas para as provas de vestibular. Cada um dos colaboradores que escrevem nas três primeiras partes se debruça sobre uma obra específica e focam seu olhar na evolução do enredo, da psicologia dos personagens e suas ligações com a biografia de Dostoievski. A bem da verdade, esse verbo focar, que a área gerencial utiliza o tempo todo, nos impede de desenvolver o olhar periférico. Aquele que combinado com o olhar central nos revelam detalhes e nuanças. Vou explicar melhor: a visão periférica nos ajuda a ver pelos espelhos retrovisores do carro. É um complemento muito importante na manobra de um veículo. Caso essa deficiência visual venha a ser detectada na avaliação oftalmológica dos peritos do DETRAN sua carteira de habilitação não poderá ser expedida. Portanto, focar significa se privar de olhar o todo, olhar os detalhes, olhar as sutilezas. Sem olhar para o conjunto desenvolvemos análises reducionistas e simplistas que muitas vezes nos colocam diante de posturas equivocadas, intolerantes e preconceituosas. Não sabendo olhar o conjunto e suas conseqüências nós nos tornamos presas fáceis nas mãos de manipuladores. Quando focamos perdemos a compreensão de elementos que podem nos ajudar na construção de nossa emancipação intelectual.

A nova formatação apresenta uns colaboradores responsáveis pelo conteúdo e outros pela crítica. Você percebe que houve uma divisão no trabalho intelectual? Que houve uma hierarquização nas tarefas? Quem terá mais status e mais prestígio? O que escreve o conteúdo ou o que escreve a crítica? Enquanto escrevo essa pequena reflexão recordei do excelente livro do Ítalo Calvino: Para Ler os Clássicos… Textos brilhantes! Ao término de cada referência de Calvino uma vontade louca de ler o original. Façanha que a primeira fase da Coleção Entreclássicos atingiu e que sua nova formatação colocou a baixo.

É possível explicar essa mudança na postura dos editores? É! Pensando que o provável número de leitores que comprou os números anteriores deve ter sido bem menor que o esperado (afinal você tem que ser leitor, ou se tornar leitor, dos clássicos para compreender os textos críticos) a reorientação editorial deve estar perseguindo um público mais numeroso: aquele que nunca leu um livro de um escritor inscrito no cânone dos clássicos. Mesmo assim, não recomendaria em minha sala de aula. Os textos apresentados são muito incipientes.

Mas, não se deixe impressionar pelas minhas palavras. Compre e leia a revista. Preste maior atenção aos três últimos artigos. Aproveite o resumão para escolher as obras que mais lhe sensibilizarem para uma posterior leitura. Ler Dostoievski, sempre, é um prazer indescritível!

Ah! Uma dica. Você pode encontrar edições muito bem cuidadas da obra de Dostoievski editadas pela editora 34 (que são as mais caras) ou pode comprá-las editadas pela editora Martin Claret ou LP&M (as duas editoras trabalham com edições de bolsos). Alimente sua emancipação intelectual tirando suas próprias conclusões. Sentindo suas próprias emoções ao ler as palavras do autor. Construindo, dessa forma, seu repertório cultural.

Um grande abraço.

Muita Paz!

Sônia Cândido

4 thoughts on “Dostoiévski em foco e em fragmentos…

  1. detalhe
    de.ta.lhe
    sm (fr détail) 1 Ato ou efeito de detalhar. 2 Pormenor. 3 Particularidade, minúcia.
    (dicionário Michaelis on line)

    “Não há assunto tão velho que não possa ser dito algo de novo sobre ele.”
    Fiodor Dostoievski

    Amiga Sonia,

    “Ele” sempre mora nos mais profundos e microscópicos detalhes.
    Sempre.

    Grande beijo a ti
    Wlad

  2. Concordo com o Wlad, e essa frase do Dostô é bem significativa perante o novo posicionamento/formatação da EntreClássicos: mesmo com mudanças, sempre há algo a acrescentar. Não posso dizer nada sobre a leva anterior, pois essa é a primeira vez que comprei uma edição dessa série especial, mas discordo de você em alguns pontos: gostei da nova formatação, por mais que seja interessante a crítica ao lado da resenha das obras, concomitantemente. Pode empobrecer um pouco a leitura crítica da edição, afinal a crítica pra valer só ocorre posteriormente, contudo observe com uma lente de aumento: a crítica está lá, e não apenas nas entrelinhas, mesmo no resumão das obras do nosso amado Dostô – aliás um absurdo eles divulgarem o desfecho das obras, falta de tato, parece quase mesmo resenha p/ vestibular. A edição, enfim, tem lá seus defeitos, mas aprovei-a numa avaliação geral, inclusive abordou uns aspectos acerca do Dostô a que eu não tinha dado tanta atenção, preciso reler Dostô, hehe. Aliás, sempre ando relendo Crime e Castigo, e descobrindo coisas novas, inclusive discordo de uma interpretação que o responsável pela resenha deste faz acerca da personalidade do Raskólnikov. Abração!

  3. Olá Jorge!

    Também concordo com Wlad acho Dostóiévski muito detalhista em todos os sentidos! rs
    Sou um aculturado sobre suas obras supercialmente é claro, esse texto foi escrito pela minha querida colaboradora, que infelizmente não está mais entre nós… mas com muita sabedoria recomendou a coleção!

    Fiquei super feliz com seu coment e acho que ela tb deve ter ficado satisfeita com sua análise sobre a coleção!

    Obrigado pelo coment e espero que volte sempre!

    Abraços


    Fabio Allves
    (11) 7396-2530
    fabioallves@gmail.com
    https://allaboutt.wordpress.com/

  4. Valeu pela réplica, pela atenção! Também sou um aculturado sobre suas obras, e na mesma linha, hehe. Dostô é muito amplo e denso para ser abordado tão rapidamente, e acho que poucos escritores geram uma linha de críticas e interpretações tão extensa sobre a obra e até sobre a vida dele. Afinal, estamos falando sobre o mais espetacular psicológo da literatura universal, talvez apenas Shakespeare sendo páreo para ele nessa acepção; além de um escritor cuja vida e experiências tão dolorosas marcaram intensamente sua produção, de uma forma que chega a ser torturante, como se ele escrevesse num processo autopurgativo. Tem muita coisa sobre o Dostô no meu blog. Abração!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s