Homenagem a nossa eterna Mestra Sônia Cândido

Caros amigos,

Sônia Cândido foi homenageada em Maio de 2011 com o seu nome na Biblioteca da Faculdade de Ensino Regional Alternativa – FERA em Arapiraca-AL. Por sugestão nossa ficou assim: Biblioteca Profa Dra Sônia Cândido. Sônia foi uma das responsáveis pela criação dessa faculdade, juntamente comigo e Josefa Lopes. A Maior parte do acervo bibliográfico de Sônia foi doado para lá.

by

Francisco Bahia

Nota de falecimento

Nota de falecimento

http://www.ufal.edu.br/ufal/noticias/2009/06/nota-de-falecimento

Informamos com pesar o falecimento da professora Sônia Maria Cândido, do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes (ICHCA), nesta quarta-feira, 17 de junho.

O corpo está sendo velado na Central de Velórios, no Prado. O enterro será nesta quinta-feira, 18 de junho, às 9h no Cemitério São José.

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Estou totalmente abalado e chocado com a noticia… uma das melhores pessoas e colaboradoras na qual encontrei na vida, durante a mostra internacional de cinema  a três anos atrás nos deixou… havia poucas noticias de sua doença (uma trombose sem causa, que ela fez uma operação no mês passado) e pela dificuldade e distância de comunicação não sabemos mais detalhes… meu amigo WLAD falou com a irmã dela na terça-feira (16/06), dia o qual ela foi internada… sem muito mais detalhes.

Sônia Cândido era saudável e jorrava alegria em vida, sempre com seu sotaque pesado e gostoso de se ouvir… trouxe muita cultura, textos, falas, pensamentos, amor, carinho pra minha vida e garanto pra muitos…

(Uma das minhas mães de mostra – como ela mesma falava, e assim olhava e cuidava de todos)

Fico muito triste em escrever essa noticia… pois colaborou para o All About (meu blog) durante um tempo, trazendo toda sua bagagem cultural de uma grande comunicadora que era… E vou sentir muitas saudades…
Mas garanto relembrar aqui e em vida os momentos importantes que passei com ela aqui em SP e tudo que aprendi no pouco tempo que a conheci…

Estamos tentando contato com a família dela e amigos… pra saber como aconteceu, porque foi tudo tão repentino…

Se alguém tiver algum tipo de noticia!

Meus contatos estão abaixo… Por Favor.

Fabio Allves
fabioallves@gmail.com
(11) 7396.2530 / (11) 3251.5839

bienalFicou o vazio… assim como no post ela fez…

Poesia e Prosa no Romance Policial

foto

Um jovem trabalhador rural é acusado do roubo de algumas cabeças de gado e alguns carneiros de seu patrão. A mãe jura que o filho é inocente, mas ele foge agravando sua situação diante da lei. Um tempo depois, o dono da fazenda aparece morto. O jovem é mais uma vez acusado e mais uma vez não apresenta um álibi. A polícia está convicta de que quem praticou os dois crimes foi o jovem foragido. A mãe do rapaz contratou um advogado para provar a inocência de seu filho. Mas, o jovem não parece nem um pouco interessado em provar que é inocente.

psicoseVocê, sendo um advogado, aceitaria um caso onde seu cliente se recusa a cooperar?
Um delator, intrigante, usurário e colecionador de desafetos foram assassinados. Um jovem, mentalmente perturbado, que quase nunca saia de casa, cujo sonho era seguir carreira militar e que esculpia armas e soldadinhos de madeira foi encontrado ao lado do cadáver. Ele é preso em flagrante. Pouco tempo depois, o rapaz morre em sua cela na prisão (homicídio ou suicídio?). Para a política o caso parece que está encerrado. Todas as peças estão encaixadas.

Você, sendo um advogado, continuaria seu trabalho depois da morte de seu cliente?
Uma contenda entre dois homens. A irmã de um deles aparece morta em um lugar ermo com a língua e as mãos cortadas. Para os policiais tudo parece resolvido: foi um acerto de contas. Mas, o acusado, um cruel e frio assassino diz que é inocente e procura um advogado para defendê-lo.

psycho

Você, sendo advogado, aceitaria esse caso?

Três histórias reflexivas, não? Respondendo sim e/ou não é necessário oferecer uma justificativa, um argumento ou uma explicação para seu posicionamento. São essas reflexões que Marcello Fois (1960), um romancista e dramaturgo italiano da Sardenha, propõe nos três livros de romance policial que foram editados no Brasil pela Record sob a rubrica da Coleção Negra em sua edição especial: Noir Europeu.

Essa edição especial é dedicada aos maiores mestres da ficção policial do velho continente. Vamos aos livros. O jovem trabalhador rural é Zenobi e sua história é contada no livro: Sempre Caro (2004). Esse romance foi finalista do premio de literatura policial Historical Dagger em 2003. O rapaz que esculpia armas e soldados de madeira é Filippo Tanchis e sua história é contada no livro: Sangue do Céu. Esse livro foi lançado na FLIP em 2005, quando o autor esteve no Brasil. E, finalmente, o cruel e frio assassino é Dionigi Mariani e sua história é contada no livro: O Outro Mundo (2004). Essas datas são as de publicação no Brasil, pois na Itália as datas são respectivamente: 1998, 1999 e 2003. É mais interessante ler na seqüência em que foram escritos porque além de existir uma continuidade na abordagem de alguns temas há a permanência de alguns personagens nas três histórias.

Para enfrentar essas situações inusitadas Fois criou Bustianu, um melancólico advogado poeta que, também, é um investigador atento a detalhes, questionador das soluções fáceis e adepto de métodos heterodoxos. Enquanto vai descobrindo fatos, o advogado nos apresenta de maneira poética as paisagens, as tradições, os temperamentos, os comportamentos e os sabores da forte região sarda. A narrativa do romancista nos conduz à criação desses cenários. Seus relatos são cinematográficos, pois suas descrições são minuciosas.

Fiquei impressionada porque ainda não havia lido uma história policial em tom poético. É diferente, sabe? É quase como uma leve lufada de vento. Você não sente o tempo passar enquanto está lendo. O elemento humano, as necessidades de cada personagem são colocadas em primeiro plano. Bustianu é um homem com conflitos, crises, raivas, expectativas e lágrimas. Seus clientes são pessoas de vida simples, despojadas e altamente confiantes na capacidade intelectual e solidária de seu representante legal, pois ele questiona o conceito de justiça vigente na sociedade.

Ao ler o livro: Sempre Caro preste atenção ao prefácio escrito por Andrea Camilleri; e ao ler: Sangue do Céu preste atenção ao prefácio escrito por Manuel Vázquez Montalbán. Essas introduções escritas por dois grandes mestres do romance policial são reveladores e, constitui um capítulo a parte. São verdadeiras aulas de crítica literária.
Mesmo antes de conceber o advogado Bustianu, Fois já havia recebido o prêmio (Italo) Calvino em 1995 e prêmio (Giuseppe) Dessí em 1997. Ambos atribuídos por instituições literárias italianas.
Bem, com essas credenciais o que me resta dizer?!?!

Boa leitura!

Descubra o prazer de ler um romance policial aonde a prosa vai se tornando lentamente um exercício poético de ver através dos olhos daqueles que são considerados culpados. Talvez essa inversão na perspectiva de olhar revele um universo, totalmente, desconhecido até então.

Um grande abraço.

Muita paz!

Sônia Cândido

… Os Grandes Pensadores e a Educação em ato …

pensadores

Desde 2006 a Editora Segmento (SP) vem publicando um suplemento especial da Revista Educação intitulado: Biblioteca do Professor. Nesse suplemento já foram publicados 09 (nove) fascículos apresentando a visão de grandes pensadores contemporâneos sobre questões educacionais.

O primeiro número foi dedicado ao gênio criativo de Sigmund Freud (1856-1939); o segundo foi dedicado ao gênio intempestivo de Friedrich Nietzsche (1844-1900); o terceiro foi dedicado ao gênio libertário de Michael Foucault (1926-1984); o quarto foi dedicado ao gênio inconformista de Hannah Arendt (1906-1975); o quinto fascículo da série foi dedicado ao gênio desmistificador de Pierre Bourdieu (1930-2002); o sexto foi dedicado ao gênio arrebatador de Gilles Deleuze (1925-1995); o sétimo foi dedicado ao gênio heterodoxo de Walter Benjamin (1892-1940); o oitavo foi dedicado ao gênio transcendente de Carl Gustav Jung (1875-1961); e o nono, e mais recente fascículo, foi dedicado ao gênio efervescente de Jacques Lacan (1901-1981). Qual será o gênio da décima edição? Estou muito curiosa. Existem tantas outras possibilidades, pois todos os grandes operadores da cultura pensaram e pensam a educação em algum momento de suas reflexões.

Bem, voltemos ao periódico. A revista está estrutura em 08 (oito) temáticas; uma sessão de bibliografia comentada; e ao final são apresentadas as referências bibliográficas citadas ao longo dos artigos publicados. As temáticas selecionadas destacam, além da esclarecedora biografia intelectual, as contribuições que cada um desses pensadores deixou registrado para pensarmos a escola e seu comprometimento ético e criativo; bem como, suas reflexões sobre a especificidade do fenômeno educativo. Sublinho, também, que existe uma apresentação de pequenos trechos de algumas obras dos autores onde podemos ter uma visão, bastante, panorâmica de suas reflexões sobre o ato educativo.

Todo o tratamento dado a esses fascículos é muito interessante, mas chamo atenção, em especial, para a sessão denominada Em Ato. Nessa parte da revista há comentários sobre diversos filmes. Os autores desses artigos se propõem a nos ajudam a pensar os conteúdos das películas selecionadas diante das idéias defendidas pelos pensadores selecionados. Esse exercício prático ao nos convidar a um momento lúdico, ao mesmo tempo, nos envolve em um aprendizado muito intenso: ler um conteúdo imagético e extrair dele possibilidades interpretativas mediante determinada postura intelectual.
Minha experiência com esse exercício foi muito intenso, pois cada vez que conclui a leitura, dessa sessão, fui à locadora mais próxima para locar, e assim, ver ou rever o filme discutido. Nessa hora saímos da dimensão de entretenimento da obra de arte. Aqui entra em cena a arte como saber, como uma das grandes chaves para a construção do conhecimento sobre o mundo que nos cerca e desafia. Pois como nos esclarece Arnauld Guigue: O cinema pode ser apreendido de outra forma, como experiência de vida. O que significa que ele pode ser outra coisa ou mais que um objeto estético suscetível de ser julgado belo ou agradável. Ele pode marcar profundamente nossa existência da mesma forma que a literatura ou a música. Uma experiência de vida põe em jogo muito mais coisas do que nosso simples gosto, ela põe em jogo nossa própria existência e aquilo que somos.

Provavelmente é nessa perspectiva que os autores dos artigos da sessão Em Ato têm em mente quando nos instigam a enxergar na obra de arte, no geral, e no cinema, em partícula, um lugar de enunciação de sujeitos sociais e as dimensões de sua existência material e simbólica.
Ampliando essa compreensão em torno dos filmes, Edgar Morin nos diz que as produções cinematográficas, ao lado dos romances, podem nos ajudar a compreender os aspectos substanciais da condição humana. Mas, é Syd Field quem nos lembra que os filmes tornaram-se parte de nossas vidas de tal maneira que às vezes nos esquecemos o quanto eles podem influenciar nosso comportamento ou nossa forma de pensar.

Leia os artigos. Prepare a pipoca, assista ou reassistir aos filmes. Elabore suas comparações e análises. Construa sua emancipação intelectual. Ela acontecerá se você cultivar a disciplina e o senso crítico. A aventura do conhecimento pode ser maravilhosa. Para que isso seja verdade, escolha suas companhias sabendo que essa viagem não tem retorno, de que ela não está isenta de riscos, controvérsias e intensos debates. Mas, será uma experiência indelével na sua caminhada rumo à liberdade de expressão, pois a liberdade pressupõe, fundamentalmente, a criação de consciências criadoras, criativas e críticas que sejam capazes de não aceitar imposições de verdades.

Um grande abraço.

Muita Paz.

Sônia Cândido

Dostoiévski em foco e em fragmentos…

pzl-humanoEstá à venda nas bancas de revista o número 7 da Coleção Entre clássicos. Esse número é dedicado ao grande escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Essa coleção é uma das extensões da Revista Entrelivros. Em sua primeira etapa a coleção nos foi apresentada com 6 publicações abordando: Dante, Shakespeare, Cervantes, Camões, Goethe e Balzac. Nessas edições é possível nos deliciarmos com artigos críticos sobre a produção literária desses clássicos. No caso de Shakespeare existe uma edição posterior que foi vendida com um DVD contendo um documentário sobre esse célebre escritor com três horas de duração. Coisa de primeira linha! Caso tenha havido uma venda posterior de revista e documentário dos outros autores da primeira fase da coleção essa leva não chegou à cidade de Maceió.

Quando lemos os números da primeira seleção de escritores nos familiarizamos com uma particularidade: todos os artigos escritos pelos estudiosos têm teor crítico, isto é, estão exercitando a crítica literária. Dessas críticas que nos enchem de curiosidade pelo texto. E nos levam quase que enfeitiçados à livraria, à biblioteca pública ou até mesmo a uma biblioteca particular de um (a) amigo (a), caso não tenhamos lido a obra em questão. É assim como ouvir um canto de uma sereia… Ou o canto da flauta mágica… Sentimos-nos impulsionados a ler com os próprios olhos e a construir com nossa imaginação aquelas descrições feitas a partir de uma percepção que não é a nossa.

Esses artigos são polifônicos, ou seja, diversos críticos escrevendo sobre as mesmas obras, mesmos cenários destacando aspectos e temáticas diferentes, complementares, conflitantes e até mesmo contraditórias. Nessa polifonia nos educam no respeito a compreensões divergentes e nos ajudam na construção de nossa emancipação intelectual. São críticas especializadas e sofisticadas, portanto, não as acompanharemos sem um mínimo de repertório cultural.

Voltemos à segunda fase da coleção. Nessa nova seleção as editoras Duetto e Ediouro vão publicar: Kafka, Joyce, Borges, Proust e Pessoa. Assim que vi um exemplar da revista comprei embalada e empolgada pela perspectiva de ler um material bastante substancial sobre a obra de Dostoievski.

Oh! Oh! Logo no editorial uma informação quebrou o encanto. Os novos editores da revista alteraram a formatação dos textos. Agora, o conteúdo está disposto em 4 partes: vida e obra; grandes romances; obras de juventude; e, fortuna crítica. O conteúdo antes apresentado sem fronteiras, agora estabelecem um hiato entre o conteúdo e crítica. O que era tecido junto passa a ser apresentado em fragmentos. As três primeiras partes parecem mais um resumão. Desses que os cursinhos preparam para as leituras rápidas para as provas de vestibular. Cada um dos colaboradores que escrevem nas três primeiras partes se debruça sobre uma obra específica e focam seu olhar na evolução do enredo, da psicologia dos personagens e suas ligações com a biografia de Dostoievski. A bem da verdade, esse verbo focar, que a área gerencial utiliza o tempo todo, nos impede de desenvolver o olhar periférico. Aquele que combinado com o olhar central nos revelam detalhes e nuanças. Vou explicar melhor: a visão periférica nos ajuda a ver pelos espelhos retrovisores do carro. É um complemento muito importante na manobra de um veículo. Caso essa deficiência visual venha a ser detectada na avaliação oftalmológica dos peritos do DETRAN sua carteira de habilitação não poderá ser expedida. Portanto, focar significa se privar de olhar o todo, olhar os detalhes, olhar as sutilezas. Sem olhar para o conjunto desenvolvemos análises reducionistas e simplistas que muitas vezes nos colocam diante de posturas equivocadas, intolerantes e preconceituosas. Não sabendo olhar o conjunto e suas conseqüências nós nos tornamos presas fáceis nas mãos de manipuladores. Quando focamos perdemos a compreensão de elementos que podem nos ajudar na construção de nossa emancipação intelectual.

A nova formatação apresenta uns colaboradores responsáveis pelo conteúdo e outros pela crítica. Você percebe que houve uma divisão no trabalho intelectual? Que houve uma hierarquização nas tarefas? Quem terá mais status e mais prestígio? O que escreve o conteúdo ou o que escreve a crítica? Enquanto escrevo essa pequena reflexão recordei do excelente livro do Ítalo Calvino: Para Ler os Clássicos… Textos brilhantes! Ao término de cada referência de Calvino uma vontade louca de ler o original. Façanha que a primeira fase da Coleção Entreclássicos atingiu e que sua nova formatação colocou a baixo.

É possível explicar essa mudança na postura dos editores? É! Pensando que o provável número de leitores que comprou os números anteriores deve ter sido bem menor que o esperado (afinal você tem que ser leitor, ou se tornar leitor, dos clássicos para compreender os textos críticos) a reorientação editorial deve estar perseguindo um público mais numeroso: aquele que nunca leu um livro de um escritor inscrito no cânone dos clássicos. Mesmo assim, não recomendaria em minha sala de aula. Os textos apresentados são muito incipientes.

Mas, não se deixe impressionar pelas minhas palavras. Compre e leia a revista. Preste maior atenção aos três últimos artigos. Aproveite o resumão para escolher as obras que mais lhe sensibilizarem para uma posterior leitura. Ler Dostoievski, sempre, é um prazer indescritível!

Ah! Uma dica. Você pode encontrar edições muito bem cuidadas da obra de Dostoievski editadas pela editora 34 (que são as mais caras) ou pode comprá-las editadas pela editora Martin Claret ou LP&M (as duas editoras trabalham com edições de bolsos). Alimente sua emancipação intelectual tirando suas próprias conclusões. Sentindo suas próprias emoções ao ler as palavras do autor. Construindo, dessa forma, seu repertório cultural.

Um grande abraço.

Muita Paz!

Sônia Cândido

Madonna “Eu Sou Porque Nós Somos”

eusouporquenossomosDevemos estar, sempre, preparados para surpresas. Essas surpresas podem ser boas ou ruins, mas em alguns casos a surpresa pode ser, realmente, surpreendente. Durante a 32º Mostra Internacional de Cinema ocorrida entre os dias 17 e 30 de outubro assistimos a um documentário chamado: Eu Sou Porque Nós Somos (2008) dirigido por Nathan Rissman. Um detalhe: Nathan nasceu em Seattle, mas se mudou para Londres. Trabalhou para Madonna como assistente de pesquisa, diretor de arte, arquivista de vídeo e até de jardineiro.

Pois bem, Nathan dirigiu esse documentário que retrata Malaui, um país africano de 12 milhões de pessoas que tem mais de 1 milhão de crianças órfãos da AIDS; um problema muito grave de fome, má nutrição e desnutrição; e, onde os tratamentos médicos são, totalmente, inadequados. Não há saneamento básico e nem uma coleta regular do lixo industrial e doméstico. Há esgotos a céu aberto. Uma situação conhecida por todos nós. De um lado a outro do planeta constatamos que o capitalismo, o socialismo e, agora, a globalização implantaram um modelo de miséria pelo mundo afora. A condição humana, ainda, é de muito sofrimento.

O documentário: Eu Sou Porque Nós Somos é um adágio banto que, claro, faz referência à interconexão existente entre todos os aspectos da vida na Terra. Um adágio que nos lembra que nossas vidas são tecidas juntas. Tudo nos afeta, mesmo que não tenhamos uma clara visão dessa ligação de vida e de morte.

Voltemos ao filme: mesmo falando de tantas situações delicadas, Madonna, que narra o filme (com sua bela e inconfundível voz), apresenta histórias dolorosas deste país problemático de uma maneira que faz com que pensamos em nossas finalidades terrestres, em uma ética da responsabilidade. A película, no entanto, não fica, apenas, na denúncia da situação de risco desses grupos sociais, mas oferece reflexão sobre soluções reais para os desafios enfrentados por pessoas que vivem em situações de extrema pobreza. Portanto, não espere um filme piegas… Pois, há uma esperança e, até, uma certa alegria nos rostos de quem foi retratado.
A grande surpresa foi que o roteiro e a produção (dividido com Ângela Becker) desse, belíssimo e tocante, documentário foi de: Madonna!!!!!

De tudo que assisti na 32º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, esse foi, sem nenhuma dúvida, o filme que mais me tocou pela sua pujança e sensibilidade. Essa foi minha surpresa: Madonna envolvida em um processo com essa temática. Nesse gesto é possível ver bondade, despreendimento, amor ao próximo.

Passada a surpresa descobri que um dos filhos dela é proveniente do Malauí e foi um dos órfãos da AIDS. Ela, também, tem uma fundação nesse país da África Subsaariana. Quando Madonna escreveu o roteiro do filme: Eu Sou Porque Nós Somos, sua intenção era apresentar sua visão sobre a situação de extremo sofrimento de nossos irmãos africanos. Ela faz mais que isso: nos lembra da necessidade de unirmos força para melhorar as condições de vida e de trabalho da maioria da população, independente de seu lugar geopolítico.

Não sou fã do trabalho artístico de Madonna, mas sou profundamente solidária ao seu trabalho humanitário.
Eu Sou Porque Nós Somos, documentário escrito, produzido (conjuntamente com Ângela Becker), narrado por Madonna e dirigido por Nathan Risman é um filme que vale apena sair de casa para assisti. Mesmo que você não goste da temática, vá ver com seus próprios olhos que o trabalho intelectual (pensar as problemáticas e oferecer soluções) não é tarefa, apenas, dos acadêmicos.

Muita Paz.

Sônia Cândido

Museu Afro Brasil

afrobrasilNo portão 10 do Parque do Ibirapuera está erguido uma preciosidade: O Museu Afro Brasil.
O maior museu afro da América Latina. Caminhando dentro dele você vai se dando conta da quanto é, realmente, importante a participação do africano na construção do Brasil. O museu é temático, mas sua grande contribuição é a presentar esse grupo social como produtor de bens materiais e simbólicos. É uma experiência inesquecível.

Logo na entrada há uma exposição dedicada a um personagem muito maroto e matreiro que Monteiro Lobato recolheu do folclore brasileiro e registrou nas histórias da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Estou falando do Saci Perêrê, Sacy, Çaa Cy Perere ou, simplesmente, Saci.

Logo na entrada encontramos uma exposição dedicada a esse personagem indígena que foi adotado pelas negras contadoras de estórias e tornado negro. Pois é, é verdade! O Saci era um mito indígena, protetor das florestas, dos rios, das cachoeiras e vivia na fronteira do Brasil com o Paraguai! E pasme: tinha duas, duas pernas. Foi na sua transformação em personagem negro que virou um símbolo travesso e libertário.

Um verdadeiro defensor da liberdade; ganhou o cachimbo de preto velho, portanto não só tem conhecimento, ele sabe fazer mandingas e curas; e, nessa metamorfose é que perdeu uma perna. Não é incrível?!?!

Tem de tudo na exposição: gravuras, cartazes de propaganda e publicidade, charges, caricaturas, cartons e desenhos. Esculturas de bronze e de madeira. Bonecos, fantoches e marionetes de pano e papel. Tem utensílios de cozinha, talheres, pratos e copos. Tem garrafa para prender Saci e tem garrafa onde ele já esteve preso. Tem livros de muitos escritores que brincaram com esse imaginário de diversas formas e em diversas épocas. É um verdadeiro reino encantado onde o Saci é, incontestavelmente, o rei.

Há, também, um documentário escrito e dirigido por Rudá Andrade (neto de Mário de Andrade) e por Sylvio do Amaral Rocha intitulado: Somos Todos Sacys. Esse vídeo tem aproximadamente 60 minutos e é exibido na entrada da exposição. Eu o assisti duas vezes. É muito educativo embora o local onde está sendo exibido não seja muito apropriado por causa do barulho externo. Nesse filme conversam sobre o Mito do Saci Perêrê: Antropólogos, Historiadores, populares, caipiras e saciólogos… Isso mesmo: saciólogos, isto é, estudiosos de saci.
É uma verdadeira aventura antropológica essa exposição.
Tudo em torno do Mito do Saci é levado a sério.
Tem até um site: Sosaci
As crianças ficam muito interessadas e empolgadas.
Eu? Fiquei tão maravilhada que passei 02:40 h (duas horas e quarenta minutos) nessa parte do Museu.
Conseguir prosseguir com a visita só foi possível porque os outros atrativos do Museu Afro Brasil são extraordinários.
Muita Paz.

Sônia Cândido

Os Cavalos de Duas Patas

meninacomababaNo apagar das luzes da 32º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi exibido o filme: Cavalo de Duas Patas (2008) da cineasta Iraniana Samira Makhmalbaf ( A Maça; O Quadro Negro e às Cinco Horas). Essa película te como título original do filme é: Two-Legged Horses, ou seja, Cavalo de Duas Pernas. Lendo as sinopses, comentários e assistindo a história contada pela Samira nos damos conta de que seria mais pertinente a fidelidade da tradução do título em inglês. Mas, vamos à obra fílmica.

A história é chocante: Um homem procura menino para transportar nas costas seu filho deficiente físico que perdeu as pernas (e a mãe) durante a guerra (Irã e Iraque) quando pisaram em uma mina terrestre. Depois de uma estranha competição, um menino (que tem uma certa deficiência mental) é escolhido e por um dólar ao dia, ele deve transportar a criança sem as pernas de casa para a escola e de volta para casa, como um cavalo de duas patas.
O filme me causou uma sensação muito forte, pois me fez pensar que a cineasta está apresentado a situação atual do Irã (e de suas crianças e jovens) e das sociedades (capitalistas) em todo mundo, pois existem outros temas tratados no transcorrer de 01:40 h. Quando saí da sessão do cinema estava transtornada pela dor aguda que as imagens haviam provocado em mim. Eu gosto muito de filme iraniano e, aprecio particularmente, o trabalho da Samira.

O Quadro Negro já é um filme bastante contundente, mas Cavalo de Duas Patas (isto, é, pernas) é muito, muito, muito mais. Esse filme estava na lista dos meus favoritos, mas ontem ele se tornou o melhor filme que vi durante a 32º Mostra. Ontem, depois de ter ido ao Museu da Língua Portuguesa, tudo foi resignificado. Ao acompanhar a instalação na praça da língua (3º andar) me deparei de repente com um trecho do capítulo 9 do livro: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), intitulado: O menino é o pai do homem. Nesse trecho Machado de Assis descreve a ação de um menino, filho de um senhor de engenho, transformando Prudêncio, um escravo, em seu cavalo. Quando ouvi e li o fragmento, imediatamente, lembrei do filme e, claro, do agudo senso visionário machadiano. Foi tão intensa a sensação que senti que não contive as lágrimas.

Quando fui à exposição sobre os 100 anos de nascimento de Machado outra surpresa me aguardava: há um quadro (1899) do pintor J. H. Papf intitulado: Bába com Criança. Detalhe: a bába está em posição de 4 (é assim que se fala?) e a criança está montada em suas costas como quem brica de cavalinho. Aliás, as crianças gostam de brincar de cavalinho, não é? Podemos pensar em Gustav Jung e o seu conceito de Inconsciente Coletivo? Ou podemos ousar pensando em Jacques Lacan e seu estudo sobre o Estádio do Espelho?

É interessante perceber que ao lado da pintura de Papf o trecho machadiano se repete. Esse mesmo quadro, em tamanho muito maior (como um painel), está exposto no segundo andar do Museu Afro-brasileiro (portão 10 do Parque do Ibirapuera) sem maiores indicações.

O texto do Machado… A Pintura do Papf… O filme da Samira… Apesar do tempo que os separa, parecem ter sido tecidos juntos. O que sabem eles sobre Edgar Morin, Michael Serres, Michael Casse ou a Complexidade?
Um grande abraço.
Muita paz.

Sônia Cândido

O Vazio da Bienal: Em Vivo Contato.

bienal

Foto: Alessandro Desidério

Olá! Estive na Bienal. Muitos críticos publicaram e parecerem terríveis a 28º Bienal Internacional de São Paulo: Em Vivo Contato. Fui conferir!

Bem, como não sou crítica de arte e sim uma simples apreciadora de artes (dentro das minhas humildes possibilidades) me entreguei por inteiro a visitação. Logo no início uma surpresa: há uma homenagem à Dona Wanda Svevo, Secretária Geral da Bienal Internacional de São Paulo morta em 2006 (?). Imagine que estou lendo livros do filósofo francês Michael Serres. Esse autor fala sobre nossa relação com o corpo… E com a morte do corpo. Minha cabeça foi a mil.
Entrando no prédio da Bienal olhei para o chão e não reconheci o desenho. Pareceu sujo, meio largado. Conversando com umas das monitoras descobri que o chão foi projetado por uma artista plástica e foi aplicado como um papel de parede. A proposta é de que ele vá se desfazendo a medida que as pessoas circulem pela Bienal. Por isso me pareceu desgastado quando olhem para o chão. Que idéia genial não é?!?! O trabalho é de Dora Longo Bahia, artista brasileira!!!! Chama-se: Escalpo.
Bem, de muita coisa que vi e experimentei com meus sentidos e sensibilidade quero destacar quatro trabalhos:

1) o segundo andar. Aqui, a obra de arte é a própria estrutura arquitetônica. As colunas, o teto, os vidros, o chão (sem a aplicação artística), as cores (branco, preto e cinza). Caminhei por todo o espaço e fiquei muito emocionada. Imaginem um mergulho nas estruturas da sociedade através das estruturas arquitetônicas de um salão cheio de significados no silêncio… Pensei nos críticos e em suas dificuldades em pensar a forma da sociedade que erguemos até agora. É um espaço de reflexão, de interiorização, de questionamento. O espaço vazio de obras para consumo imediato grita de questões sobre o significado da vida, da condição humana e da construção de nosso futuro da humanidade. Ao fundo da sala um homem está sentado em meio a uma quantidade razoável de objetos. Um cartaz no meio de tudo pergunta: E se ele fosse um mendigo? Chorei… Estou chorando agora contando essa experiência. É muito forte… O homem nada fala… Eu dei boa tarde… Ele respondeu com um aceno. Depois observando de longe outra pessoa que se aproximou percebi que ele responde a sinais e gestos como mímica… É preciso inventar outras formas de comunicação???

2) No terceiro andar: O Mundo Explicado – Enciclopédia: Como o mundo e seus componentes funcionam de acordo com a visão de Não especialistas em qualquer campo do conhecimento. Esse trabalho é de um artista mexicano que vive em Barcelona chamado: Erick Beltrán. Imaginem que ele organizou perguntas científicas e saiu na rua perguntando as respostas às pessoas na rua. Perguntas científicas com respostas populares!!!!! As respostas não estão distantes das explicações que aprendemos nos livros. O saber nasce dessa forma. Perguntas respondidas nas vivências e entendimentos cotidianos!!! Esquecemos disso ao longo dos anos. Por isso precisamos ser lembrados. E ser lembrados pela arte é delicioso!!!!

3) No terceiro andar: há um trabalho de Peter Friedl. Esse artista austríaco que vive em Berlim enviou à Bienal slides digitalizados de playgrounds do mundo inteiro entre 1995 e 2008. Há tanta semelhança entre os parques no mundo inteiro: modelos de brinquedos, cores e espaço que nos perguntamos onde estão as diferenças?

4) No terceiro andar há uma parede branca (síntese de todas as cores) e uma fechadura confeccionada em metal. Ela não tem abertura. Foi instalada por Carsten Höller artista belga que vive em Estocolmo. Quando mais você se aproxima para ver através da fechadura mais sua própria imagem aparece destorcida. Quando mais afastada mais você se esquadra na visão do todo da sala. Não é incrível? Quando mais você se olha mais sua visão capta a distorção (de si mesmo!). Quanto mais desfocado de você mais integrado ao ritmo, som, imagem e cor do ambiente, do espaço… Uma boa análise psicanalítica vai nos falar do ego, do narcisismo, do voyeurismo (olhar pela fechadura… Olhar a intimidade do outro…). Tem mais assuntos sobre a Bienal.

Fiquei muito reflexiva sobre outras obras que nos fazem pensar na Complexidade, religação, condição humana… Bjs.

Sônia Cândido

Nova Colaboradora de Longe… Sônia Cândido

All About tem a honra de apresentar uma nova colaboradora de longe lá de Maceió, em cartas, depoimentos e textos brilhantes contando suas experiências para nós.

Sônia Cândido é professora da UFAL (Universidaade Federal de Alagoas) e atualmente coordena um grupo de 09 alunos do curso de licenciatura em teatro de estudo sobre a Sociologia do Amor.